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segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Novela de Lauro César Muniz
Direção geral de Daniel Filho
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(1977 - Rede Globo)




SOBRE A NOVELA
Texto de Paulo Senna, publicado pelo jornal O Globo (11/11/2001)
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"Espelho mágico" (1977), de Lauro César Muniz, ia ao ar às 20h, na Rede Globo, trazendo os bastidores da TV para a frente das câmeras. Enquanto contava história sobre atores e jornalistas que circulam nos estúdios de gravação, mostrava, dentro da trama, uma outra novela, "Coquetel do amor". O elenco era formado pelos próprios personagens, que montavam ainda uma peça de teatro, "Cyrano de Bergerac". O mais interessante na novela foram os tipos criados por Lauro, com uma escalação próxima da vida real. Tarcísio Meira e Glória Menezes faziam o casal famoso da TV; Sonia Braga era a jovem atriz que lutava para vencer; Yoná Magalhães (Nora Pellegrini), uma atriz em crise por não conseguir mais papéis de mocinha nas produções, e Daniel Filho, o diretor de novelas. Tinha ainda a dupla pai e filha do teatro de revista formada por Lima Duarte e Djenane Machado, além de Pepita Rodrigues como a atriz que abandonava a carreira para se casar com um milionário. Juca de Oliveira era Jordão Amaral, o dramaturgo sem projeção. Tony Ramos deixava a TV Tupi e estreava na Globo e Vera Fischer, ex-miss Brasil, iniciava uma carreira de estrela, como Diana Queiroz.

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VOCÊ ESTÁ GOSTANDO DE ''ESPELHO MÁGICO''?
Escrito por Artur da Távola, publicado pelo jornal O Globo (10/07/1977)
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Com a entrada do "Cyrano de Bergerac" e da novela "Coquetel de amor" (será uma novela dentro de outra) "Espelho Mágico" deverá tomar um impulso de popularidade e audiência ainda não conseguido, em que pese a qualidade do texto de Lauro César Muniz, a honradez da sua proposta, o nível dos diálogos, a atualidade dos conflitos e a verdade buscada.
Segundo consegui saber (vi, inclusive fotos belíssimas tiradas para a revista "Amiga") o tratamento teatral que está sendo dado à encenação do Cyrano é de excepcional qualidade e cuidado, com um diretor de cena francês, que está montando a peça tal e qual ela viesse a ser encenada em teatro.
A própria marcação dos atores no Cyrano é em função da existência de uma platéia hipotética de teatro e não em função das câmeras de televisão, como ocorre nas novelas. Soube de depoimentos de atores e atrizes que intervêm no "Cyrano de Bergerac" dentro dê "Espelho mágico", impressionados com a alta qualidade artística que Daniel Filho está ousando e a Globo topando nas cenas do teatro, o que cala, aliás, a boca de Walmor Chagas, quando diz, em entrevista de anteontem, que na televisão não é possível haver arte ou fazer-se arte. Porque ele nunca a fez ou quase nunca conseguiu fazê-la, não é justo que diga que na televisão não existam possibilidades artísticas de bom nível.Eu poderia passar o resto da crônica citando momentos de alta qualidade artística em televisão. É verdade que Walmor apareceria muito pouco nessas citações, não por ele que é ator de raro talento e bons recursos, mas pelos personagens que recebe quase todos estereotipados e lineares, como esse insuportável Fábio de "Loco-motivas", novelinha onde os homens só fazem o papel de panacas ou de objetos sexuais, como disse muito bem o ator João Carlos Barroso. Walmor está sendo radical ao generalizar a sua experiência pessoal. Mas volto ao "Espelho mágico''.
Parece que serão gravadas cenas no total de quase hora e meia de "Cyrano" (a peça original leva mais de três) com os momentos fundamentais da obra de Rostand. Essas cenas serão distribuídas ao longo de alguns capítulos de "Espelho mágico". Isso deverá não só movimentar a novela, como dar-lhe uma dimensão cultural de rara importância. Inclusive quanto a habituar o grande público a textos teatrais, pois a tradução do "Cyrano" tem o tratamento literário do original, belíssimo, aliás, embora antigo como estilo.
O outro pólo de "Espelho mágico" será a novela dentro da novela, ou seja "Coquetel de amor" que Jordão (Juca de Oliveira) está a escrever. A propósito, Juca de Oliveira e Yoná protagonizaram quinta passada um belo momento de "Espelho mágico", ele enrustindo o ciúme, ela explodindo-o. Estão ambos excelentes. Juca já conseguiu passar aquele mundo de silêncios e inquietações inexplicáveis, latejante, no escritor, nas duras fases de criação. Yoná, igualmente, o desajuste de uma paixão (a dela por Jordão) mal administrada, sofrida, misturada com as fossas da meia-idade e de uma carreira travada por impasses e poucas respostas do sucesso. Muito bom. "Coquetel de amor" deverá ser o lado mais popular de "Espelho mágico", seu gancho de audiência.Pessoalmente creio que "Espelho mágico" mais do que novela está virando o teste mais importante de toda a história da Rede Globo. Sabem por quê? Porque a rede está arriscando não dar certo do ponto de vista de audiência (eu acho que vai dar certo, principalmente se o Lauro César Muniz desintelectualizar alguns diálogos e algumas redundâncias de natureza autobiográfica). Só quem arrisca merece vencer. Quem pretende apenas vencer e não aceita perder não merece as vitórias.A publicitária Rose Saldiva chamou-me a atenção para um fato interessante: Será que o grande público quer mesmo ver os seus ídolos desmitificados (ó revisão, deixar assim "des - mitificados", de mito. Se corrigirem. para desmistificados, com s, muda o sentido)? Será que o grande público prefere ver os seus atores (que são os deuses do seu Olimpo) sofrendo; com impasses; amargurados; fossentos; escovando os dentes depois do um pifão (cena na qual Pepita Rodrigues esteve magnífica e comovente!); sofrendo na carne o pouco tempo que têm para dar aos filhos que põem no mundo; assustados com o futuro; lutando por um papel; entredevorando-se? Será?É uma bela pergunta. Do ponto de vista do comportamento do mercado, pode ser que este, numa autodefesa da própria necessidade de ilusão, prefira ver os seus ídolos sempre inatingíveis, perfeitos, olimpianos, intocáveis, belos, fortes, poderosos. Alienação ou não, a verdade é que as idealizações fazem parte do cortejo de necessidades psicológicas do ser humano e pode ser que algo se quebre dentro do público, quando ele perceba que está desvendando o mundo dos seus ídolos e esse mundo é igual ao seu em insegurança, medo e até mediocridade, feiura e até pobreza, convivendo com a grandeza e a esperança.
Por outro lado, porém, Lauro César Muniz, o autor, ao arriscar romper essa imagem "ungida" de que o público necessita, está humanizando intensamente a visão do artista. Ele está dando uma dimensão critica e analítica ao público, ao colocar os artistas em carne viva, lutando por ser e existir, com todo o desespero e toda a beleza que os constituem.É exatamente por causa desse conflito que o desafio de "Espelho mágico" talvez seja o maior que a Rede Globo já enfrentou no horário das 20 horas, consagrado até hoje ao novelão sentimental e não ao drama realista. Se vencer, o resultado terá grande importância para o futuro da telenovela.
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VÍDEO
Rosana (Glória Meneses) atira em Ciro (Tarcisio Meira) em cena da novela "Coquetel de Amor", dentro da novela "Espelho Mágico".

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