
Diogo e Beatriz se agridem e são surpreendidos por Leila!
Revista Amiga (1977)


Novela de Lauro César Muniz
Com a entrada do "Cyrano de Bergerac" e da novela "Coquetel de amor" (será uma novela dentro de outra) "Espelho Mágico" deverá tomar um impulso de popularidade e audiência ainda não conseguido, em que pese a qualidade do texto de Lauro César Muniz, a honradez da sua proposta, o nível dos diálogos, a atualidade dos conflitos e a verdade buscada.
A própria marcação dos atores no Cyrano é em função da existência de uma platéia hipotética de teatro e não em função das câmeras de televisão, como ocorre nas novelas. Soube de depoimentos de atores e atrizes que intervêm no "Cyrano de Bergerac" dentro dê "Espelho mágico", impressionados com a alta qualidade artística que Daniel Filho está ousando e a Globo topando nas cenas do teatro, o que cala, aliás, a boca de Walmor Chagas, quando diz, em entrevista de anteontem, que na televisão não é possível haver arte ou fazer-se arte. Porque ele nunca a fez ou quase nunca conseguiu fazê-la, não é justo que diga que na televisão não existam possibilidades artísticas de bom nível.Eu poderia passar o resto da crônica citando momentos de alta qualidade artística em televisão. É verdade que Walmor apareceria muito pouco nessas citações, não por ele que é ator de raro talento e bons recursos, mas pelos personagens que recebe quase todos estereotipados e lineares, como esse insuportável Fábio de "Loco-motivas", novelinha onde os homens só fazem o papel de panacas ou de objetos sexuais, como disse muito bem o ator João Carlos Barroso. Walmor está sendo radical ao generalizar a sua experiência pessoal. Mas volto ao "Espelho mágico''.
fossentos; escovando os dentes depois do um pifão (cena na qual Pepita Rodrigues esteve magnífica e comovente!); sofrendo na carne o pouco tempo que têm para dar aos filhos que põem no mundo; assustados com o futuro; lutando por um papel; entredevorando-se? Será?É uma bela pergunta. Do ponto de vista do comportamento do mercado, pode ser que este, numa autodefesa da própria necessidade de ilusão, prefira ver os seus ídolos sempre inatingíveis, perfeitos, olimpianos, intocáveis, belos, fortes, poderosos. Alienação ou não, a verdade é que as idealizações fazem parte do cortejo de necessidades psicológicas do ser humano e pode ser que algo se quebre dentro do público, quando ele perceba que está desvendando o mundo dos seus ídolos e esse mundo é igual ao seu em insegurança, medo e até mediocridade, feiura e até pobreza, convivendo com a grandeza e a esperança.
Por outro lado, porém, Lauro César Muniz, o autor, ao arriscar romper essa imagem "ungida" de que o público necessita, está humanizando intensamente a visão do artista. Ele está dando uma dimensão critica e analítica ao público, ao colocar os artistas em carne viva, lutando por ser e existir, com todo o desespero e toda a beleza que os constituem.É exatamente por causa desse conflito que o desafio de "Espelho mágico" talvez seja o maior que a Rede Globo já enfrentou no horário das 20 horas, consagrado até hoje ao novelão sentimental e não ao drama realista. Se vencer, o resultado terá grande importância para o futuro da telenovela.