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sábado, 8 de novembro de 2008

1980








UM BOMBOM ENVENENADO
Escrito por Paulo Maia e publicado pelo Jornal do Brasil (07/02/80)
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Cassiano Gabus Mendes tem nas mãos o segredo do sucesso das novela no horário das 19h. Marron Glacé é mais uma de suas histórias em que aparecem a ambição como personagem principal e a riqueza como objetivo. Tem cenários luxuosos, com piscinas e mulheres bonitas, que a maioria dos personagens da novela geralmente pobres, quer conquistar, seja qual for preço a pagar.

O público gosta dessa receita doce, preferindo-a a pratos mais salgados que lhe reservam autores como Jorge Andrade, Lauro César Muniz e Dias Gomes, entre outros, muito embora nem sempre abandone em massa esses últimos. Cassiano tem um gosto todo especial pelo lumpemproletariado, por essa gente que depende, de alguma forma e diretamente, de uma casa rica para sobreviver. Suas babás e seus garçons são bonecos do mesmo barro, figuras da mesma estirpe humana.
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Suas novelas não têm aquele sabor kitsch de loucura absoluta que dona Janete Clair mantém sob controle, numa mágica invejável. Ao contrário, seu texto é certinho e, ao decorá-lo, tão fácil e tão correto ele é, os atores não têm a mesma dificuldade que têm ao enfrentar o sem nexo total da autora de Pai Herói ou os monólogos longos do autor de Os Ossos do Barão. Quem viu a reprise de Pecado Capital, nesse festival de 15 anos da Globo, pôde comparar a personalidade ciclotímica dos personagens de Janete Clair em contraposição ao dejá vu total dos personagens de Cassiano Gabus Mendes.
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É bem verdade que as criaturas do autor de Marron Glacé têm uma extraordinária tendência para uma ausência de caráter mais ou menos acentuada. Esse Otávio, o gerente do bufê, às voltas com a canastrice do galã Paulo Figueiredo, tem muito a ver com aquela babá interpretada, ainda nos tempos da televisão em preto e branco, por Suzana Vieira.
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Marron Glacé tem assim aparentemente, aquele espírito leve e folgazão exigido para os horários vesperais e de início de noite, mas, no fundo, nas entrelinhas de seus diálogos, bem que poderia haver a possibilidade de afastar seu enredo dos atentos olhos infantis que povoam o público telespectador do horário das 19h. O bufê de Madame Clô esconde histórias inconfessáveis de gente da pior espécie, esses tipos humanos capazes de protagonizar os pesadelos mais macabros.
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Salva a telenovela a participação de um elenco heterogêneo, mas acima das possibilidades estéticas do texto. Gonzaga Blota dá-se o luxo de ter uma atriz do porte de uma Teresa Rachel numa ponta, se bem que a personagem de Lola ganha cada vez mais tempo, inclusive pela garra com que a artista a defende, livrando-a até da tendência que o autor deve ter de levá-la ao maquiavelismo absoluto. Lima Duarte, Yara Cortes e esse cômico extraordinário que é Laerte Morrone completam O time de atores de primeira grandeza, no universo do núcleo das 19h.
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Há, naturalmente, atuações de nível inferior, como a de João Carlos Barroso. Os trejeitos exagerados de Juliano estão muito abaixo da expectativa que pode ter de um ator como Ricardo Blat. Em compensação, a falsa ingênua Ritinha é uma interpretação nunca esperada de Heloísa Millet. Se, para Mila, interpretar é apenas esconder as orelhas sob o cabelo liso, pelo menos há um Ary Fontoura usando toda a experiência do teatro em frente da câmera, em seu Ernani. Boa surpresa é a burra e fútil Leonora de Lady Francisco, embora tenha de contracenar tantas vezes com Denise Dumont, que é uma atrizinha ruim de amarrar.
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De um modo geral, o saldo da direção é positivo pelo ritmo, pela boa exploração do texto certinho de Cassiano Gabus Mendes e pelo fair play com que enfrenta a tentativa da história de provar que todo pobre é um mau-caráter em potencial. Marron Glacé é um bombom. Nada pode opor a seu doce, inclusive porque não é enfarado. Pena que não deixe de ter o veneno de sempre.
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Fonte: TV Pesquisa - Puc-Rio
Foto: site João Carlos Barroso
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