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CONTROLE REMOTO (especial) - TÚNEL DO TEMPO

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

1999


Dívidas, demissões e greves abalam a Manchete.


Na onda dos remakes que invade a TV, a crise da Manchete tem jeito de história que se repete, não como farsa, mas como tragédia. Lembra os últimos dias da Tupi, há 18 anos, quando a primeira emissora brasileira foi tirada do ar, com uma novela pelo meio, audiência lá em baixo e funcionários sem receber salários. Lançada em agosto e prevista para terminar só em junho, a novela "Brida" despediu-se de seus poucos telespectadores há duas semanas. O fim da história foi narrado por um ator, o ex-apresentador Augusto Xavier. Em greve por causa dos salários atrasados, Rubens de Falco, Carolina Kasting, Leonardo Vieira e os demais atores do elenco, além dos técnicos, se recusaram a gravar o desfecho antecipado.
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Antes de ser tirada do ar, a novela, fracasso de crítica, audiência e, conseqüentemente, de faturamento, havia sofrido corte de um terço de seu pessoal. A magia de Paulo Coelho, autor do best seller que inspirou o diretor Walter Avancini a fazer a novela, não evitou o naufrágio. Apesar do investimento maciço em publicidade, Brida manteve a média de dois pontos de audiência. Confirmou uma operação descida que teve início com o último sucesso da emissora, "Xica da Silva". Em 96, os melhores momentos de "Xica" renderam 14 pontos no Ibope. Em seguida, a Manchete caiu para seis pontos, com "Mandacaru".

"Brida" custava caro para os padrões da Manchete: U$S 45 mil por capítulo. Avancini, a exemplo do que fez nas produções anteriores, tentou uma salvação de emergência. Quis esquentar a história com erotismo (até mesmo cenas de sexo grupal) e a convocação de estrelas da casa, como Victor Wagner e Carla Regina. Tudo em vão: os anunciantes continuaram fugindo, às carreiras. "Eles tinham com a emissora um contrato de risco: se o ibope não chegasse a cinco pontos, não haveria patrocínio para a novela", conta o presidente do Sindicato dos Artistas, Stephan Nercessian. Segundo o diretor-comercial da agência DPZ, Daniel Barbará, foi prometido aos anunciantes uma audiência de dez pontos. Longe da meta, a emissora se compromete a veicular anúncios sem custo adicional.

O vice-presidente da Manchete, Carlos Siegelman, revelou aos atores que não pagará os salários porque o fracasso da novela esgotou os recursos da empresa. O superintendente-comercial das empresas Bloch, Osmar Gonçalves, também diz que "Brida" foi um dos estopins da crise. "Investimos muito e não tivemos o retorno esperado", diz Gonçalves. Ele prevê para este ano uma queda de 30% no faturamento, que chegou a R$ 80 milhões em 97.
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Futuro está nas mãos da justiça.
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A crise da Manchete é antiga, embora só tenha ficado evidente no fim do mês, quando foram demitidos 600 funcionários e tirados do ar jornalísticos como "Câmera Manchete" e "Na Rota do Crime". Sem garantias, estrelas da emissora trataram de ir embora. Raul Gil, que dava oito pontos sábado à tarde, foi para a Record. Márcia Peltier, que ancorava o "Jornal da Manchete" e produzia o "Márcia Peltier Pesquisa", só esperou o primeiro turno das eleições para sair. Tudo indica que vá para a Bandeirantes. O diretor-geral, Fernando Barbosa Lima, voltou a sua produtora. Quer criar programas para o Mercosul.
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Há duas semanas, a crise atingiu um ponto terminal. Sem receber os salários de setembro, os jornalistas e radialistas pararam no Rio, em Brasília e, na semana passada, em São Paulo. Parte dos programas que deixaram de ir ao ar foi substituída por televendas e programas religiosos. "Esse tipo de programação é a tendência da emissora", diz Barbosa Lima. "Eu não concordava e por isso saí". Na semana passada, atores, radialistas e jornalistas fizeram assembléias diárias em frente às sedes da emissora em São Paulo e no Rio. Os possíveis sócios e compradores nada declaram, para não afetar a audiência.
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O direito de administrar a emissora, hoje, é disputado na Justiça por dois grupos, Bloch e IBF. O destino da Manchete está nas mãos da Justiça, mais precisamente do juiz Marco Aurélio Fróes, da 35ª Vara Civil do Rio. Enquanto estiver sub-júdice, a emissora não pode ser vendida. A audiência que vai resolver a pendenga ainda não foi marcada, mas dificilmente será este ano. A briga pela emissora vem de junho de 1992, quando a IBF comprou a rede por US$ 30 milhões, assumindo dívida de US$ 120 milhões. Paga a primeira parcela, uma auditoria avaliou a dívida da Manchete em US$ 240 milhões. "Diante disso, a segunda e a terceira prestações não foram pagas", conta Roberto Lonessa, advogado da IBF. O Grupo Bloch entrou na Justiça para reaver o direito de gerir a rede.
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A Manchete tem outras dívidas. A diretora-administrativa do Grupo Bloch, Jacqueline Kappeller, afirmou em reunião com sindicalistas que a folha de pagamento chega a R$ 5 millhões. A empresa, segundo dados extra-oficiais, tem dívida de R$ 85 milhões com o INSS até 97. O Sindicato dos Radialistas informa que, desde 90, a constribuição ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) não é paga. (B.C.S.)
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Beatriz Coelho Silva
Agência Estado
An Tevê
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