CANAL MEMÓRIA DA TV (escolha uma atração para assistir)

CONTROLE REMOTO (especial) - TÚNEL DO TEMPO

quinta-feira, 5 de abril de 2007






.
Novela de Gilberto Braga
Direção geral de Dênis Carvalho
Rede Globo - 1984/85
.
.
.
DISCUSSÃO SOBRE O RACISMO EM HORÁRIO NOBRE
Texto de Sérgio Sant'Anna, publicado no Jornal do Brasil em 1985.
..
.
"Querer misturar seu sangue com o meu é muita folga. Nas veias de um Fraga Dantas não vai correr sangue de negro, não". A frase, dita pelo personagem Alfredo Fraga Dantas semana passada, na novela Corpo a Corpo, poderia ser apenas um recurso de folhetim, arrematado na cena seguinte: seu autor cai do cavalo e precisa de uma doação de sangue para escapar da morte. Exatamente o sangue da negra que ele acabara de espinafrar.O texto recitado por Hugo Carvana, o Alfredo Fraga Dantas, e por Sônia, encarnada pela atriz Zezé Motta, repercutiu forte entre o público, um impacto maior do que as similares do gênero. Pela primeira vez a televisão escancarava o racismo. O preconceito racial já foi tratado por outros autores mas sempre ficou pelas bordas da questão. Dessa vez, no entanto, Gilberto Braga, autor da novela, mergulhou fundo, sem enfeites e dissimulações.Por enquanto, o telefone do Centro de Atendimento do Telespectador da TV Globo continua tocando em ritmo normal. Aquietou-se desde que Sônia e Cláudio, vivido pelo ator Marcos Paulo, separaram-se. Mas quando o
romance entre o branco e a negra começou, o telefone tocava sem parar. Disparou na noite em que os jovens se beijaram. "Ridículo, esse romance", contestavam alguns. Outros, mais radicais, achavam "uma vergonha" esse tipo de amor exposto no vídeo.Quando alinhavou a sinopse de Cor po a Corpo, Gilberto Braga sabia que mexeria com muita gente. Mais do que a presença do diabo, ele intuiu que o público teria reações mais fortes diante da disputa profissional do casal Osmar/Eloá e poderia mesmo chegar à beira do escândalo com o romance, de final feliz, entre um jovem branco e rico e uma moça instruída, mas pobre e negra. "Não estou falando dos preconceitos de uma forma leviana. Conversei com muita gente e li dois livros que me deram muita ajuda: Fala, crioulo, do Haroldo Costa, e Tornar-se negro, da psicanalista Neusa Santos Souza. E, claro, botei toda minha experiência de racismo".O trabalho de Gilberto Braga acabou sendo facilitado pelo próprio público. Recebe cartas e telefonemas que pedem sempre a mesma coisa: separação para Cláudio e Sônia. Em uma das cartas, um espectador sugeriu que o ator Marcos Paulo limpasse a boca com água sanitária depois de beijar Zezé Motta. Outro, depois de tecer os maiores elogios aos trabalhos anteriores de Gilberto Braga, era taxativo: "Não continuarei a assistir a novela. Você virou comunista, feito Tancredo Neves".Ossos do ofício, avalia o autor que confessa ter sempre a preocupação de encontrar fórmulas que agradem ao público. Nesse caso, no entanto, ele não pretende inventar soluções conciliadoras: "Separar o casal mexe com meus princípios morais. Se estou sendo odiado por alguns, contento-me com o prêmio de ter recebido telefonemas de amigos que descobriram o racismo dentro deles e se envergonharam".Marcos Paulo e Zezé Motta sentem na pele a repercussão do papel que representam diariamente para milhões de espectadores. Assim que o namoro entre Cláudio e Sônia engatou, Marcos Paulo foi cercado, na saída do estúdio, por uma funcionária negra. Ela dizia que a filha estava escrevendo uma carta onde declarava, com todas as letras, que não queria vê-lo com aquela negrinha. "Isso para não falar nos beijos. Uns acham "nojento", outros "cuidado que a cor pode pegar". E já ouvi conselhos do tipo "Como é que você se presta para esse papel?" Mas a Sônia e o Cláudio acabam juntos e estou muito satisfeito com o papel", avisa.Algum tempo atrás, quando o ator Antônio Pitanga lhe deu as boas-vindas ao mundo dos negros, Marcos Paulo achou graça. "Não tinha a menor idéia de como é que rola o pau. Acabei descobrindo como funciona o racismo nesse país. É uma deformação cultural inconsciente e, hoje em dia, tenho o maior respeito. De uma forma fantasiosa, através da novela, estou vivendo o preconceito racial e passo a avaliar de uma forma bem mais realista a posição do negro no país".Zezé Motta recria no vídeo preconsituações que conhece muito bem. Há 15 anos ela viveu, durante dois anos, com um rapaz branco. Um dia. resolveram casar. Ele dizia que queria dar essa alegria à mãe de Zezé, preocupada em ver a filha bem casada. "A família dele imediatamente entrou em pânico. O problema foi tão grave que resolvemos desistir. Ficou muito clara essa situação de senzala: para amante, para o prazer, a mulher negra serve. Oficializar é outra questão. O engraçado é que antes de pensarmos em casamento a mãe dele me amava de paixão".O preconceito racial Zezé Motta detecta em várias camadas sociais. Logo no início de sua carreira, morou algum tempo no apartamento da amiga Marília Pera e não se esquece da empregada nordestina que a odiava sem disfarces. "Depois, entrou uma negra e a coisa se repetiu. As duas detestavam me servir, às vezes chegavam a se recusar. E, quando o faziam, quase jogavam as coisas em meu colo. Achavam uma humilhação trabalhar para mim". São essas experiências que levam Zezé Motta a não ter dúvidas: "Tudo o que o Gilberto Braga escreve eu assino embaixo Ele expõe na novela situações muito reais. Aquela história de colocar um pregador para afilar o nariz é a mais pura verdade".Hoje, depois de dois casamentos com brancos, Zezé está casada com um negro: "Emoção nada tem a ver com a raça," diz ela. Uma posição bem diferente do público que acompanha a via crucis de sua personagem Sônia, apaixonada por Cláudio, de quem foi separada nada mais do que pela cor da pele. Dia desses Zezé Motta recebeu um telegrama de Tim Maia que a deixou muito espantada. No telegrama, ele dizia: "Amiga Zezé Motta, não sei como você aceitou esse papel tão humilhante para a raça negra. Um beijo do Tim Maia".Zezé encara seu papel em Corpo a Corpo de uma forma bem diferente. Para ela, fazer a Sônia é uma espécie de catarse. Abre uma porta para a discussão de um assunto até agora mantido como tabu. "Tem gente que acha errado a Sônia ter ficado tão arrasada com as palavras do Alfredo Fraga Dantas. Discordo. Quando um negro é preterido ou agredido por ser negro, ele fica realmente arrasado, humilhado. Se a Sônia saísse cheia de glamour, demonstrada apenas uma grande alienação. Todos perceberiam a mentira em seu comportamento".Há alguns dias, Zezé viveu um momento muito parecido com o de sua personagem. Voltou de viagem e trouxe um presente para a amiga Renata Sorrah. Como não encontrava tempo para fazer a entrega, pediu à filha de 17 anos que levasse o presente ao apartamento de Renata. O porteiro se recusou a deixar a menina entrar pela portaria da frente. Renata fez o maior escândalo, mas o fato estava consumado, o preconceito aparecera da forma mais clara.O episódio serviu para que Zezé Motta provasse à amiga a força da discriminação. "Ela achava que eu era meio neurótica com essa história de preconceito. Mas ele existe mesmo. Só se fica sabendo quando acontece com gente famosa. Mas está todo mundo sofrendo esse tipo de coisa diariamente, sem que apareça no jornal. Humilhação para o negro existe com freqüência. Posso dizer que já encaro a questão sem mágoa porque estou em outro nível de compreensão e discussão".A atriz Ruth de Souza, a Jurema, de Corpo a Corpo, não vê nessa exposição do racismo nada muito positivo. Na sua opinião, o melhor seria mostrar negros que vencem na vida, indicar caminhos para driblar esse preconceito. Ruth de Souza acha que o texto de Gilberto Braga deixa bem claro o que os racistas pensam do negro. "Só o que me impressiona é que o discurso dos preconceituosos é mais forte do que os que não se incomodam com a diferença de raça. E o resultado é que esse xingamento todo tem magoado a comunidade negra. A filha de 16 anos de uma amiga minha chorou no outro dia, surpresa com o vigor usado pelo Alfredo. Naquele momento, e ficou sabendo a força do racismo. Para quê? Ninguém lhe indicou uma saída".
.
..
.
VÍDEOS
A abertura da novela "Corpo a Corpo".
.
.
.
.
.
.
.
Zezé Motta relata que não só sua personagem foi vítima de racismo na trama de Gilberto Braga. Cena do documentário "A Negação do Brasil".
.
.
.
..
O elenco da novela creditado em cena do último capítulo.
.
.

Nenhum comentário: