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sábado, 29 de agosto de 2009

Elenco estelar numa farsa hollywood-tupiniquiniana.

Por: Daniel Pepe e Duh Secco








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Às 19h de 06 de junho de 1983 estreava “Guerra dos Sexos”, um marco da teledramaturgia que Sílvio de Abreu escreveu com a colaboração de Carlos Lombardi, contando com a direção de Jorge Fernando e Guel Arraes, supervisionados por Paulo Ubiratan. O autor resumia toda a história em apenas uma linha em entrevista ao Jornal do Brasil, concedida em maio de 1983: “Guerra dos Sexos é, de certa forma, a briga entre machistas e feministas, mostrando o quanto o radicalismo, neste caso, é desnecessário e ineficaz”. Mas a novela não se resumia a isso!

As novidades de Guerra dos Sexos começavam pelo quarteto estelar de protagonistas: o casal maior do teatro que se encontrava pela primeira vez em outro veículo – Fernanda Montenegro e Paulo Autran – e o casal maior da TV, que já havia namorado em inúmeras produções, desta vez aparecia em pé de guerra – Tarcísio Meira e Glória Menezes.
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Vídeo: chamada de estréia.


Vídeo: TV Resgate
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A trama teve do início ao fim uma estrutura rígida da narrativa, amarrada na idéia inicial de Sílvio de Abreu (mencionada acima), não tendo se perdido praticamente em nenhum momento. Pelo contrário. Na altura da metade da novela, o protagonista Otávio (Paulo Autran) teve problemas de saúde e precisou se afastar por dois meses. E nem por isso o autor deixou a peteca cair. Criou o entrecho do desaparecimento do personagem, que mesmo ausente se fazia presente para atormentar a prima Charlô (Fernanda Montenegro). Um desses artifícios foi o de mandar três mulheres, cada uma a seu tempo, para instigar a curiosidade da prima e da criada Olívia (Marilu Bueno) sobre ele ter outras relações e sobre o que fazia quando pintava o bigode de preto e saía com o fiel e companheiro motorista desajeitado Nando (Mário Gomes). Elas deram vida às chamadas “mulheres do bigode preto”, em participações super especiais de Renata Sorrah, Suely Franco e Regina Duarte.

Vídeo: Regina Duarte é Alma, uma das “mulheres do bigode preto”.
Vídeo: rhsherwood

Participações especiais não faltaram em “Guerra dos Sexos”. Outras bem marcantes foram as ex-mulheres de Felipe (Tarcísio Meira), interpretadas por Eva Wilma, Aracy Balabanian, Suzana Vieira, Irene Ravache e Renée de Vielmond, que apareceram juntas para atormentar o ex-marido.

Se a estrutura da novela era linear, ao mesmo tempo conseguia ser anárquica e debochada, cheia de cenas nonsense, de acontecimentos surreais que partiam de algum entrecho importante no desenrolar da história. Como na situação em que Charlô cai do “Minhocão” depois de uma perseguição, atrás de Otávio e de Nando, numa das tentativas de desvendar o “segredo do bigode preto”. No hospital, convalescendo, ela canta para os outros doentes como Susan Hayward em “Meu Coração Canta”. E logo em seguida, se finge de moribunda para Otávio, cena inspirada no filme “A Dama das Camélias” .

Vídeo: Charlô finge estar à beira da morte como em “A Dama das Camélias”.

Vídeo: rhsherwood



Essas foram uma das muitas referências a Hollywood. Talvez a maior citação tenha sido a festa em que Charlô deu em homenagem à amiga Roberta Leone (Glória Menezes), na qual os convidados deveriam ir fantasiados de atores hollywoodianos. Como sempre, Charlô surpreendeu e foi vestida de Theda Bara, atriz polêmica para a sua época. Otávio apareceu de Rodolfo Valentino, maior galã do cinema mudo. Roberta encarnou Doris Day; Felipe se fantasiou de Rock Hudson; Juliana (Maitê Proença), de Rita Hayworth; Vânia (Maria Zilda), de Jean Harlow; Manoela (Ada Chaseliov), de Elizabeth Taylor; Kiko (Diogo Vilella), de Elvis Presley e Analu (Ângela Figueiredo), de Shirley Temple. O Gordo e o Magro também estavam presentes nos empregados Olívia e Ismael (Wilson Grey).



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Sílvio de Abreu chegou a solicitar, inclusive, uma trilha sonora internacional composta somente de temas do cinema americano, já que vários deles pontuaram inúmeras cenas da novela. Só que a essa altura, as músicas que compunham a trilha internacional da trama já estavam selecionadas. Porém, não foi a discordância com relação à trilha sonora que tirou o brilho de “Guerra dos Sexos”. A novela tinha em seu elenco, alguns dos maiores nomes da teledramaturgia.

Além do quarteto principal, outros atores davam à história uma qualidade diferenciada. Uma delas foi Yara Amaral, que interpretou magistralmente a paulistana de ascendência italiana do bairro da Mooca, que tinha como qualidades ser fofoqueira, encrenqueira, ignorante e preconceituosa, sem com isso deixar de ter um grande carisma e ser bastante querida como quase todas as mulheres reais que existiam no bairro e que continuam lá até hoje. Não bastasse tudo isso, Nieta era noveleira! Característica perfeita para fisgar de vez o telespectador.

Sônia Clara também esteve bem na pele da espiã atrapalhada de Otávio, Verusca, que quase sempre metia os pés pelas mãos. E ainda fez uma ótima parceria com o trambiqueiro Nenê, papel bem à vontade de Hélio Souto.

Ada Chaseliov vivia Manoela, a neurótica que não dava sossego ao marido Fábio (Herson Capri), que tinha um romance secreto com Juliana (Maitê Proença). Ela era a neta romântica de Charlô e sonhava um dia em se casar com o príncipe encantado, que no princípio era Fábio, seu amor desde a adolescência. Mas mais tarde seu coração foi mesmo fisgado por Nando, que passou a novela inteira dividido entre ela e Roberta.

Maria Zilda representou a mulher independente financeira e emocionalmente que morava sozinha e não tinha planos de se casar nem de ter filhos. Apenas curtia a vida e as paixões sem compromisso. Por outro lado, Leina Krespi mudava o tom e vivia uma tia solteira, dona Semíramis, às voltas com sua sobrinha, Frô, a feiosa que se julgava deslumbrante, numa criação perfeita de Cristina Pereira. Quem também mudava de ares era Helena Ramos, musa da pornochanchada, que encarou o desafio de viver a boa e recatada Lucilene. Já Lucélia Santos era Carolina, a mocinha com cara de anjo que na verdade era um diabinho que enganava e prejudicava quem quer que fosse para atingir seus objetivos, entre eles ser a mulher de Felipe.

Fechavam o elenco ainda Ary Fontoura, Edson Celulari, José Mayer, Tatiana Issa, Terezinha Sodré, Paulo César Grande, Fernando José, Lys Beltrão entre outros.

Em depoimento ao site Memória Globo, Fernanda Montenegro diz que ""Guerra dos Sexos" foi uma linguagem ousada. Mas ousamos na medida certa. Foi uma loucura certa." Loucura ou não, foi a novela certa, na hora certa. Quando o gênero dava sinais de cansaço, “Guerra dos Sexos” sacudiu o cenário da teledramaturgia, deixando sua marca na história da televisão brasileira. E uma marca maior ainda na lembrança de todos os que puderam conferir esse grande espetáculo.

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2 comentários:

e d d y disse...

Guerra dos Sexos é hors concours. Um clássico em toda a acepção da palavra. Onde o tripé: texto, direção e atuação funcionou perfeitamente. Falar mais é chover no molhado. Não há como não elogiar. Tudo irrepreensível. SIM, eu adoro as ''belas pernas'' de Maria Zilda!!

Luiz disse...

Uma novela impecável e inesquecível. Um marco na história da TV brasileira. Personagens inesquecíveis, uma trama rocambolesca, em muitos momentos tresloucada e inverossímil, mas sempre apaixonante. Destaque para Maitê Proença, no auge da formosura e para a aparição relâmpago de Regina casé, no último capítulo, como a fofoqueira Carlotinha Bimbate.